Quando a taxa Selic subiu de forma consistente entre 2021 e 2024, muitas empresas brasileiras trataram o movimento como temporário. Havia caixa sobrando, spreads apertados e apetite de bancos e fundos por crédito corporativo. A emissão de debêntures bateu recordes. Linhas de crédito rotativo pareciam baratas. Contratos de swap com taxa fixa eram celebrados como proteção inteligente.
Dois anos depois, o cenário é outro. A Selic estabilizou em patamar mais alto do que o mercado esperava no início do ciclo, e o custo efetivo da dívida — não o nominal do contrato, mas o que realmente sai do caixa — subiu de forma relevante para dezenas de companhias listadas e centenas de empresas de médio porte.
O que mudou no custo médio ponderado
O indicador que mais aparece nas conversas com CFOs é o custo médio ponderado da dívida (CMPC, ou WACC da parcela de dívida). Não é um número que costuma ganhar manchete, mas ele explica por que uma empresa com alavancagem estável pode ver sua margem líquida cair sem perder receita.
Tomemos um exemplo ilustrativo — uma empresa de logística com dívida líquida de R$ 1,2 bilhão e EBITDA anual de R$ 430 milhões. Em 2022, seu CMPC era de 10,4% ao ano, composto por debêntures prefixadas a IPCA+5,8% e uma linha bancária atrelada ao CDI+1,2%. Em 2025, sem nova emissão, o mesmo passivo custava 14,1% ao ano. A diferença de 3,7 pontos percentuais representa cerca de R$ 44 milhões a mais em despesa financeira anual — quase 10% do EBITDA.
O problema raramente é a dívida em si. É a velocidade com que o custo subiu enquanto a receita crescia em ritmo mais lento.
Esse padrão se repete em setores intensivos em capital: saneamento, energia, papel e celulose, construção civil pesada. Empresas que emitiram no auge da liquidez com prazos longos agora carregam passivos caros em um ambiente de receita mais moderada.
Perfil de vencimentos virou prioridade
Antes do ciclo de juros, o mercado olhava sobretudo para o múltiplo dívida líquida/EBITDA. Hoje, a concentração de vencimentos em 2027 e 2028 aparece com frequência nas apresentações a investidores. Empresas com 40% ou mais da dívida vencendo em 24 meses enfrentam pressão dupla: refinanciar em taxas mais altas ou usar caixa que estava reservado para capex.
A negociação com bancos mudou de tom. Antes, o CFO pedia prazo e volume. Agora, pede flexibilidade de covenant e possibilidade de amortização antecipada sem multa. Alguns contratos firmados em 2021 incluíam cláusulas de step-up que elevam a taxa se determinados indicadores piorarem — e esses gatilhos estão sendo ativados com mais frequência do que o previsto.
Estratégias que aparecem no mercado
Três movimentos dominam o segundo semestre de 2025 e o início de 2026. Primeiro, a venda de ativos não estratégicos para reduzir passivo: participações minoritárias, terrenos, filiais deficitárias. Segundo, a renegociação de swaps — empresas que fixaram taxa no pico estão pagando caro por proteção que hoje parece excessiva. Terceiro, a postergação de capex de expansão em favor de manutenção obrigatória.
Há também casos de emissões de debêntures com prazo mais curto e taxa flutuante, uma inversão em relação ao padrão de 2020-2022. A lógica é aceitar incerteza de taxa em troca de não travar custo alto por dez anos.
O que observar daqui para frente
Para quem acompanha balanços, três sinais merecem atenção. Despesa financeira crescendo mais rápido que a receita. Caixa livre negativo por mais de dois trimestres consecutivos sem explicação sazonal clara. E aumento de provisões para perdas com devedores enquanto a dívida própria sobe.
O ciclo de alta de Selic pode ter terminado, mas o custo da dívida continuará alto enquanto os contratos antigos não forem substituídos ou amortizados. Para muitas empresas brasileiras, 2026 será o ano de pagar a conta — não com pânico, mas com escolhas difíceis sobre o que financiar e o que adiar.